segunda-feira, novembro 21, 2005

A porta...

Das cidades não percebo muito. Mas de moradias sou um mestre! Na província são castelos, orgulhosas mesmo nos azulejos. A entrada é majestosa, embora burguesa. Mas nunca é utilizada. A verdadeira porta, a da frente, nem abre. Ao tentar, sentimos o ranger da madeira inchada pela apatia e o pó acumulado por baixo.
As moradias da província têm um segredo, simultaneamente o seu bem mais precioso. A porta da cozinha!
É por ela que se entra. Fica na parte de trás da casa, tem uma pequena e simples fechadura e é muitas vezes frágil. Tem uma grande área em vidro, para que luz possa entrar, não temendo outras invasões.
Por ali aprendemos, batemos de doce, nos entalamos e percebemos. Por ela entrei, de primeira namorada escondida.
Tenho saudades, da porta da cozinha...

quarta-feira, novembro 16, 2005

Assustado, a pingar e Dr. Phil

Que dia estranho! Desde manhã que as ideias me escorriam. A constipação é representação democrática, longe de pressões e imune a maus olhados. No final do dia, apertado por gravata incómoda, sentei-me ao volante. Vá! Coragem! É só mais uma reunião e depois vais para casa.
Procurei o lenço, já encharcado. De pouco me servia, a não ser que...
Deve ter sido uma estranha visão, a quem por mim passava, de braço esticado na auto-estrada, de estendal improvisado a esvoaçar. Resultou! Afinal era só água. De lenço sequinho lá continuei.
Forças para comprar uma sopinha, mantinha doce depois do banho e comando pousado no meu domínio. Comecei a saltar...
Foi um intervalo ou uma parte menos interessante, que permitiram uma breve mudança, que se estendeu a alguns minutos. Ao querer regressar, o desespero! O que é que eu estava mesmo a ver? Que assustador!
No canal feminino choravam crianças, de pais separados e reunidos, noutras famílias e de psicólogos e mais não sei o quê...Demorei por lá, confesso...

segunda-feira, novembro 14, 2005

A encarnado...

Hoje vou escrever muito a cor, de vermelho vivo! Imagino-me professor corrigindo erros ou enganos, no passado.
A cor foi deixada atrás. Já não é respeitada. As faltas ainda serão a vermelho, com peso enorme, marcadas a sangue? Não sei! Mas tinha muita força, capaz de ofender!
Encontrei uma prenda de uma namorada, de há muitos anos atrás. Também tinha vermelho, mas era num coração. Transmitia força e emoção.
Na mesma gaveta estava uma almofada de carimbo, de igual cor. A pequenota manchou o dedo, de curiosa e perguntou – Pai, o que é isto?

terça-feira, novembro 08, 2005

a porta

há muitos anos, a noite era de vigília silenciosa cansada ao teu quarto.
os fantasmas cirandavam e eu não queria que te perturbassem os sonhos de menina.
ficava de olhos abertos na escuridão até a escuridão me abraçar por desgaste. acredita, não aguentava mais do que o tempo que os olhos se mantinham alerta.
mas tinha a sensação de que nada te tocava. que te guardava.
hoje as portas do teu quarto ficam fechadas. não sei se para evitar os pesadelos ou se para os deixar só aí dentro.
se para ouvires melhor o espanta-espíritos da maçaneta, ou se para não ouvires nada. tremo.
e penso, enquanto te puxo o edredon para perto das orelhas, e miro essa cascata dourada na almofada, que voltaram os dias de vigília.
um peso aperta-me o peito. de novo.
desta vez não posso falhar.

segunda-feira, novembro 07, 2005

... do escuro...

às vezes ainda tenho medo do escuro. quando as noites são demasiado curtas para o descanso, longas demais para o cansaço.
quando a mão não sente mais que o lençol frio, e no calor do corpo se agigantam transparências frias de ausência.
nesse não saber do lado de lá.
quando não sei de mim. e não sei onde me procurar.
reinvento no escuro as luzes das estrelas que me sossegam. mas estrelas inventadas pouco brilham na força débil do corpo salgado, arrefecido.
e o desejo pode apenas jazer na almofada, vazio. de olhos esbugalhados molhados doridos.
esperando que o dia acorde e o peso do peito aqueça com a luz do sol.
que virá. apesar de tudo, tem de vir.

O medo...

Às vezes...ainda tenho medo do escuro. Ainda procuro a luzinha de presença que me acalma. Imagino a mão que é doce e se junta.
A minha cama é muito grande...reparei! Pela primeira vez, senti que ali cabe mais alguém.
É assim que sabemos e encontramos o nosso par. À noite, em silêncio, deitamo-nos...e ficamos a pensar, em quem gostávamos que estivesse perto no próximo acordar.