quarta-feira, agosto 31, 2005

falar...

... exorciza...
... precisar de mãos estendidas e de luzes de presença. precisar de sentir algo à volta, como uma brisa fina que faz sentir que existe exterior. que existo por oposição ao não sentir.
sensorial. uma palavra deitada no ouvido eleva a pele em arrepio. tece teias doces à volta do peito.
às vezes falar ajuda a largar o mapa e o norte de mim. para que não me reconheça.
às vezes falar despeja-me no chão como uma poça de água límpida e fresca. depois evaporo.

Teorias...

Reparei que, durante o dia, me farto de partilhar teorias...Falando sozinho ou em palestra improvisada, libertando um impulso esmagador de comunicar, de esvaziar-me de pensamentos.
Hoje ouvi por duas vezes alguém dizer.
- Lá vem este com uma teoria!
A expressão foi acompanhada por riso que nos desarma. Amuei! Sem razão? Não me interessa! Não me obrigo a falar com alguns peixes, trocistas e que ouvem mal...muito mal.
Servirá o incidente para que entenda os limites da dissertação, a não ser em outros palcos, onde nos procuram. Aí somos tão livres...

segunda-feira, agosto 29, 2005

reticências(...)

de caminhos. de opções e dúvidas. de olhares, de vidas, de entretantos.
porque nada é certo, não há verdade absoluta que nos entregue ao ser.
porque a cada bifurcação surge o entendimento, mas não a resolução.
são as reticências esse pedaço de certeza suspensa, a pergunta, o cheiro que não se reconhece. são o mistério e o meio sorriso. e o meio choro.
são a tal luz de presença.

As vacas e a sombra...

O que parecia pequenino vai voltando aos poucos, todos os dias, para que observe e entenda.

Ao virar-me lá estavam, muito quietas. Vacas alentejanas! Suportando um calor de Inferno, sem suar e abdicando das sombras. Na verdade existiam muito poucas, caindo de árvores corajosas. As vacas eram mais, e não lutavam por um lugar longe do Sol.
De vez em quando voltavam, ainda sem lutar, para que pudesse ver. Imaginem três sombras, para vinte ou trinta candidatos. Na primeira um touro enorme, deitado sem importância. Na seguinte dois machos mais pequenos, que pareciam conversar. Finalmente, debaixo de uma árvore enorme, uma mãe e a sua cria!
Depois de um pouco e mais quilómetros, a mesma resposta. E fazia sentido…

Já as ovelhas são diferentes. Reúnem-se, debaixo de uma única sombra. Apertam-se, até que quase todas caibam no mesmo local. No dorso, duas garças…

terça-feira, agosto 23, 2005

pequenas coisas

dizia uma senhora de voz límpida numa canção foleira que gosto de dançar noite dentro no meio da rua: "assim são as coisas: quanto mais pequenas, mais ternas, mais suaves, mais maravilhosas".
assim são as coisas pequeninas, ínfimas, que despoletam um sorriso no meio dos dias tristes e inúteis. não passo um dia sem sorrir, várias vezes ao dia.
já me perguntaram, surpreendidíssimos, se a vida me dava assim tantas razões para isso.
a minha resposta é uma pergunta: e há assim tantas razões para negar um sorriso? a um empregado simpático, a uma criança de olhar de chucha, a um dia brilhante, a um cão bem-disposto, a uma situação caricata, a um turista a pedir informações, ao sabor de um gelado, ao andar pesado da empregada da limpeza do escritório?
porque eu gosto, ao fim do dia, que me recebam com um sorriso, mesmo que cansado. se for franco, é a melhor coisa do mundo.
é por achar que o mundo não nos compreende que por vezes perdemos as oportunidades de nos darmos a conhecer. ou apenas de disfrutar um centésimo de segundo mais simpático.
eu preciso disso. preciso de me acarinhar.

Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again...

Este é o nome de uma obra prima de sete minutos, escrita e interpretada por Bob Dylan desde os anos 60. Hoje, ajudou-me a voltar aos meus 16 anos e à simplicidade de uma tarde de Verão.
Voltei a Lisboa porque trabalho fora dela, longe o suficiente para estar rodeado de verde e dos seus cheiros.
Tinha combinado ir ao cinema com um amigo, daqueles que temos que pensar para saber quantos anos observam a nossa amizade.
Voltando, já de noite, conduzi tranquilo para casa. Ao parar no sinal segui o normal impulso de olhar para o carro parado a meu lado. Dentro estava uma rapariga, uma senhora, que parecia ser sua mãe e, empoleirado ao seu colo, um gatinho. Era pequeno e queria ver o que o Mundo lhe podia mostrar. Sorri...e elas sorriram de volta.
Lembrei-me do meu avô, sentindo-o perto. Ele via sempre as pessoas que paravam ao seu lado.
Continuei o caminho, que até era curto, e por me sentir bem evitei a habitual transgressão, que me leva ao estacionamento de sempre.
O meu carro tem muitos botões, fala comigo e fecha-se sozinho, assim que me afasto dele. Finjo falar com ele, murmurando a ordem de que não necessita. Por momentos sinto-me mágico. Nessa altura passou por mim o senhor dos frangos. Está sempre com um ar saudável! Entrou na loja, hoje fechada e na maior escuridão. Se tivesse uma loja também a visitava, para ver se precisava de algo.
Passei pelo rés-do-chão habitados por brasileiros. Pensei que gostam de morar perto da terra, muito importante no seu país natal. Deve ser esta a razão…obriguei-me a repetir.
Ao entrar no prédio onde moro, reparei que a outra terra ainda estava no chão, apesar de terem endireitado o vaso há uns dias. Nem fica mal, pensei. Tem um toque artístico.
Subi ao segundo andar, para logo voltar a descer, para pôr o lixo e ver se tinha correio. Cá fora soprava um vento fresco e que fazia pouco barulho. No correio apenas publicidade. Gostei muito de uma régua em papel, que promovia um serviço de remodelações. O meu prédio é antigo e bem precisava de algumas. Como tinha muitas réguas, decidi partilhar! Coloquei uma na caixa do 3º esquerdo. Há que manter viva a boa vizinhança e as relações com os outros moradores.
Voltei a subir, para escutar de novo os meus vizinhos da frente. São velhinhos e têm sempre a televisão no volume máximo. O senhor sai muito, fuma e tem uma boina. A mulher nunca aparece. E mesmo a sua voz, apenas a pude ouvir duas vezes. Até podia ser uma gravação!!
Depois do banho, esperava-me um magnífico jantar. O que sobrara do frango de ontem e que ainda era bastante. A mais simples refeição é deliciosa quando nos sentimos bem. Imaginei logo a sobremesa, com gelado de nata e bolachinhas com algum chocolate. Guardei o tesouro para outro dia. Ia ficar demasiado cheio para escrever.
A felicidade apareceu num final de tarde. Vinha escondida pelo que posso ver todos os dias…

segunda-feira, agosto 22, 2005

luz de presença...

permanece ao longe. entre corredores e portas onde os monstros se alojaram. mas é nessa luzinha fraca, alaranjada, que reside a esperança dos dias.
que renasce da dormência a mente estagnada.
é nessa luz que prendo os olhos todas as noites antes de adormecer, a cujo brilho frágil dedico as minhas preces, pois é ela que me vela os sonhos e pensares. nela me envolvo de laranja quente, nela abrando a respiração.
porque me lambe as feridas devagarinho, dando-lhes ar para cicatrizar.
é nesse brilho sossegado de olhos meigos que a paz retorna aos poucos.
nela fico suspensa no ar, rezando que a próxima queda não venha, e se vier, venha mais branda.
porque é preciso tempo para recuperar. tempo descansado, sonos profundos e dias azuis.

O abraço...

Apareci deslizando...
Reconheci cada sentir como meu, em pequenos pós com muito brilho.

Segurei-te forte num abraço, gritando um novo murmúrio...
Não cairás sem mim...

começa sempre assim...

... uma mão estendida, à procura.

os lençóis revoltos, frios, mesmo ao lado do corpo alagado em suor.

andar pelas ruas em sorrisos e, de repente, a queda. cair, cair, sem parar, sem perceber. sem perceber o corpo, a sua fraqueza súbita. sem perceber que peso é aquele no peito, que dormência aplaca as mãos.

sem motivo aparente, porque os motivos são tantos, pequeninos, acumular de dores esquecidas, relativizadas. pela cabeça, não pelo coração.

estender a mão.
alguém que me abrace, estou a cair.

se surgir o abraço, a união é eterna...

domingo, agosto 21, 2005

O início...

...para que ninguém tenha medo do escuro.