segunda-feira, fevereiro 20, 2006

desenho...

pinta-me num quadro. não, não me pintes um quadro, pinta-me num. pega nos lápis e no traço decidido suaviza-me em pretos e cinzas, em carvão e papel. 6b? é bom, é macio e intenso. com os dedos persegue as linhas do meu corpo e ondula-as no divagar dos olhos. não me percas de vista. não tenhas medo da tela em branco. é a cama onde me deitarás. aquele sinal, que é secreto, expõe-no para mim. eterniza-me o pensamento melancólico que só a ti te mostro, revela-o com as tintas transparentes de uma tarde de chuva. como me vês? queres este lado ou o outro? esfuma as sombras com a ponta do dedo, pode ser que me esfumes as angústias. retrata-me o ofegar, agora suspenso dos dias sem lugar definido. vou estender esta perna. ou talvez não. recria-me no tracejado hesitante da pulsação, nos dedos espalhados pelo vento, apanhando-me desprevenidamente simples. não tens pincéis ou papel? não precisas. traça-me a saliva. pinta-me com o teu hálito quente. grava-me no ar da tua memória. prendo o cabelo? mistura os pigmentos e textura-me as palavras. faz explodir em mim as cores com que te exclamei a vida. lembra-me delas. descreve-me em recortes de luz, em opacidades e transparências, curvas e rectas, gestos compulsivos e serenados. pinta-me num quadro.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

O sono...

Era muito estranho, porque os olhos reviravam-lhe enquanto escrevia. Já tinha ouvido falar de tal, mas pensava numa lenda em mito, e não acreditava. Sentado no final de um café fumarento, esquecia-se do seu redor para entoar um abano de cabeça, desengonçado e musical. Fui à sua beira para puxar a cor de verde nos olhos e expulsar o branco em maioria. Antigamente os escritores faziam assim. Mais do que as essências e os pós, utilizavam o sono para escrever. Permitiam-se à sua ausência por um punhado de tempos, em que deslizavam num vái-vem de necessidades negadas. Em sono, perto do sonho, deixavam a parte esquecida da alma escrever e contar, chegar onde a lucidez não permitia.