sexta-feira, dezembro 30, 2005

Longe...

Pensei que sabia…pensava que podia viver assim, com mais paz e aquela folhagem estranha atrás de mim. É difícil descolar. Sabemos que são pequenas arestas que se prendem na face mais rugosa, que para não ferir se recusam a escorregar. A intenção conta uma vez mais e enruga a testa.
Tomo crença e vejo os erros e os medos, arranho fácil quando estou tranquilo. Consigo mais clareza, embora não afaste o impulso. Se me apetecesse chorava agora. Por ela, por tudo, pela fraqueza, pelo frio, por uma dúvida que vai morrendo.
Num campo, cheio de verde de conforto e ondulação, passeava o toque nas últimas palavras, mas pensadas. Pedia desculpa em silêncio, afastando o fim de ano que virá só. Preciso pensar…afastado…

terça-feira, dezembro 20, 2005

tormentas

descansa onde as ondas se aninham em pequenos golpes que fazem espalhar o cabelo em carícias de mãos infinitas. no pequenos reflexos encontra-se de um lado e de outro de uma transparência serena. espraia o olhar pelo corpo nu envolto em texturas mansas, fundindo-se com algas e sal.
de súbito, um raio cai vindo de lá das órbitas conhecidas. explode a água e espalha por todo o lado os fragmentos do sossego. agora cortam a pele. agora são facas, as gotas que ainda há pouco lhe acariciavam o corpo, as suas gotas, perturbadas e tornadas lâminas frias.
o eco. rebenta no seu peito e rebate em todas as direcções, pressionando-a contra as frágeis fronteiras de si com o ar. enrola-se sem norte, sem sul, sem o sorriso de leste a oeste que se perdeu. procura uma estrela-guia que lhe diga que o raio se foi. mas o eco agita ainda as águas em bátegas de aço grotescas que se vomitam na sua pele enregelada. quer respirar em calmaria, evocando a suavidade das algas. agora prendem-lhe os movimentos e entorpecem-lhe os sentidos, provocam uma dormência dolorosa que a repugna. o eco. maldito, maldizente, venenoso. espalhava-se pelas veias, pulsando-as sem ordem, sem denominador comum.
cerra os punhos. não mais. não mais. chega. procura em si todo o medo e tristeza e condensa-os num só grito que prende atrás da garganta. nos soluços evoca o delírio que nas mãos trementes fecha. fecha em bolas de fogo ardente. quando não mais há a encontrar nos poros de força ou ímpeto, quando está já tudo nas mãos e na boca, despeja em lágrimas ardentes amargas o grito que voa acima dos rugidos e dos ecos.
todas as dores que nunca se permitiu doer nos olhos ali largou. no seu mar, que agora vibrava sem ritmo. as lágrimas caíram, desfazendo a acidez até serem apenas sal. do corpo corroído do choro, agora fraco e vazio, caiu na água. todo o negrume diluía-se agora na limpidez de pequenos mosaicos de cores vivas escurecidas. a estrela-guia mirou-a do alto, abençoando o alívio. deixando-a chorar as tristezas durante o tempo que precisou até conseguir adormecer no abraço quente do mar, agora manso, apesar das correntes que de vez em quando ainda a arrepiam. é só um calafrio. o mar está manso.
não voltará a acordar.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Ao sonhar...

Queremos chegar, em deslize de um fumo agarrado aos dedos. Deduzimos e vimos, lemos o outro no que virá. Chamamos a arte, empregando o medo, os nervos e apertamos. Olhamos para o lado onde ontem nada havia, entoando aqueles sons.
Por detrás emerge uma poesia tosca, que dobra a vontade e vai empurrando um aconchego frágil.
Paramos de concluir, de colocar no seu lugar. Amamos errar na certeza de sentir. De sublevar e revoltar, por escolher o enganar.
Agarramos com exagero doce…e podemos parar, sem o escolher…

segunda-feira, dezembro 05, 2005

De arrepio...

Ao senti-la entreabrir ainda pensei em encostar, em ficar de dúvidas, planeando a respiração.
Uma corrente mais forte forçou as velhas dobradiças, mostrando a sua cor…a preto…
Procurei nos detalhes, deitado para trás de mãos esfregando a incerteza…que não sentia. De olhar acordado, procurei um pontinho azul onde me segurar…e adormeci…

corrente de ar

naquela frincha por onde entra o ar, o frio suspira nos ossos. quer-se agarrar essa frincha e preenchê-la com o calor dos dedos. os dias gritam à volta e naquela frincha desprendem-se pequenos ecos.
nesses momentos o melhor é abrir a porta. totalmente. e o vento que nos gele de uma vez. porque o calor do corpo combatê-lo-á. e vencerá. e o silêncio suaviza então os ecos e os sopros. e nua me disperso à janela depois.